terça-feira, 16 de março de 2010

Os Sermões de Santo Antônio

Os sermões de Santo Antônio

Segundo os estudiosos, os Sermões Dominicais e Festivos são a única obra autêntica da pena de Frei Antônio e, como toda obra leva o cunho de seu autor, trazem a marca de sua personalidade e espiritualidade. Depois de inúmeros estudos e confrontações de códices e citações, finalmente, no ano de 1979 se publicou a edição crítica dos Sermões, em Latim, graças ao árduo labor dos irmãos franciscanos conventuais Benjamín Costa, Leonardo Frassón e Juan Luisetto, com a colaboração de Pablo Morangón. A obra foi editada pelo Mensageiro de Santo Antônio lá de Pádua, Itália. Desde o começo faz-se necessário um esclarecimento. Os Sermões de Santo Antônio quase nada têm a ver com nossos sermões ou homilias; talvez poderíamos sim defini-los como um manual, um prontuário, um tratado, um conglomerado de mensagens bíblicas..., para que os futuros pregadores os assimilassem, os ruminassem e os enfeitassem para o povo. Os temas centrais são os evangelhos dos domingos e festas. Para desenvolvê-los, recorre ao missal e ao breviário. O missal lhe oferece, além do Evangelho, o oremos e a epístola; o breviário lhe oferece os textos do Antigo Testamento. Frei Antônio era um homem metódico e, utilizando estes textos, pode desencadear uma exposição bíblica de amplo repertório e segura eficácia. O texto sagrado é amiúde explicado segundo os quatro sentidos, que gozavam de grande simpatia entre os escolásticos: o sentido literal, o anagógico (em relação a vida eterna), o alegórico e o moral. Os mais desenvolvidos são o alegórico e o moral. Era a mentalidade da época, à qual Antônio se adaptou muito bem. Antônio tinha o nobre propósito de explicar a Bíblia com a Bíblia. Nada mais justo nem mais proveitoso, porque o melhor intérprete de um texto é outro texto ou o contexto, ou a tradição! Este método ajudava muito a iluminar, ampliar e aprofundar o texto. Naturalmente não faltam maneiras um tanto artificiosas para fazer concordar um texto com outro em razão do nome, do lugar, da etimologia, da história... Para respaldar sua interpretação, o santo recorre à grande fonte patrística; e, muito freqüentes, são as citações de Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Jerônimo, São Gregório, São Bernardo... Igualmente, em temas filosóficos ou morais, recorre a sabedoria da Grécia e de Roma. Para matizar os temas e ampliar horizontes, não deixa, de vez em quando, de recorrer às ciências naturais as quais, apesar de achar-se em seus inícios, constituíam o único acervo científico da época. Em Antônio se pondera um gosto particular pela etimologia que lhe permite, através de interpretações e símbolos, enriquecer seu caudal doutrinal e abrir-se a novas realidades. Seu grande mestre foi Santo Isidoro de Sevilha.

Fins e Temas

Que fins buscava Frei Antônio? No Prólogo de seus Sermões ele mesmo esclarecer isto. O fim remoto, evidentemente, é a glória de Deus e o bem das almas; o fim próximo, a instrução dos irmãos, aos quais queria brindar uma ajuda para sua conduta espiritual e suas atividades ministeriais. Os mesmos fins temos nós ao publicar aqui os escritos do santo: brindar aos leitores material formativo para sua instrução e animação na vida cristã. Nos Sermões aparece com freqüência a palavra "Glossa". O que era? Era uma coleção ordenada e racional de explicações bíblicas e de sentenças dos Santos Padres. Para os mesmos fins exegéticos, Antônio utiliza as famosas "Sentenças" de Pedro Lombardo, que tanta influência tiveram nos grandes mestres do Século XIII: santo Tomás de Aquino, São Boaventura, e o beato João Duns Scoto... Antônio pregava nas igreja e nas praças para os humildes, os simples, os pobres, os marginalizados, os pecadores. Manifesta preferência pelos temas morais: o homem e Deus, a conversão, a reforma da vida, a confissão, o espírito penitencial, o chamado à santidade, as grandes vivências evangélicas, o seguimento do Senhor, o serviço ao próximo, a fraternidade, a solidariedade... Frei Antônio, com sua experiência de teólogo e de santo, abre a todos os seus ouvintes a torrente da misericórdia do Senhor, a ternura do Menino-Deus, os gemidos amorosos do Senhor crucificado, os encantos virginais de Maria e sua maternal proteção, a companhia e o alento da inumerável multidão dos santos... Que metodologia seguiremos? Procuraremos seguir algumas orientações básicas: antes de tudo, fidelidade ao texto; em seguida, claridade de conceitos; e, finalmente, linguagem o mais possível agradável. Se conseguiremos ou não, deixamos a apreciação dos leitores.

Frei João Mamede

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